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Milho: perda por enfezamentos pode passar de 60%, revela estudo

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Um artigo publicado no conceituado periódico científico European Journal of Plant Pathology correlacionou a perda de produtividade em função da severidade dos sintomas causados pelos enfezamentos do milho e constatou que, em média, o prejuízo pode chegar a 63%.

“Pela primeira vez, conseguimos quantificar o impacto dos enfezamentos na produtividade do milho em condições de campo típicas da segunda safra”, destaca o pesquisador Adriano Augusto de Paiva Custódio, do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná — Iapar-Emater). “Essas informações são decisivas para orientar produtores, técnicos e empresas sobre manejo, época de plantio e seleção de híbridos”, ele acrescenta.

Os pesquisadores analisaram informações obtidas em 2.130 parcelas experimentais distribuídas em 22 ensaios, conduzidos em dez municípios do Paraná ao longo das safras 2022 e 2023. Nos experimentos, todos realizados em condições reais de produção, foram avaliados 72 híbridos, incluindo materiais convencionais e transgênicos.

A severidade da doença foi medida em uma escala de 1 a 6, que considera o percentual de folhas com sintomas típicos dos enfezamentos. Essa escala, amplamente utilizada em trabalhos de melhoramento e fitopatologia, permitiu modelar com precisão a relação entre sintoma e produção.

O modelo estatístico adotado revelou que há relação direta entre severidade dos sintomas e perdas de produtividade — para cada unidade de aumento na escala, a redução média é de 1,04 kg/ha, ou 12,7% de queda; podendo chegar a 63% no nível máximo (nota 6).

Os pesquisadores avaliaram também se a tolerância de cada híbrido — declarada pelas empresas — modifica a intensidade da perda por severidade, e não encontraram diferença estatística entre os diversos materiais testados. Significa que, embora existam materiais mais tolerantes, a velocidade com que a produtividade cai diante do aumento dos sintomas é semelhante entre grupos de híbridos, particularmente em situações de alta pressão da doença.

Para Custódio, esse resultado não invalida o uso de híbridos mais estáveis e tolerantes, mas indica que fatores ambientais e de manejo podem ter peso ainda maior no impacto final da doença — especialmente relacionados à semeadura antecipada e à menor pressão da cigarrinha Dalbulus maidis, vetor que transmite os molicutes e vírus associados ao complexo.

“Em algumas regiões, os enfezamentos deixaram de ser uma doença secundária e já representam o principal fator que limita a produção. Quantificar esses danos permite dimensionar o problema e investir no desenvolvimento de tecnologias mais eficientes de manejo”, aponta o pesquisador Deoclécio Domingos Garbuglio, também do IDR-Paraná. “É importante destacar que as estimativas se referem a perdas médias, pode haver situações específicas em que a queda na produtividade ultrapassa os 90%”, ele acrescenta.

O estudo demonstrou ainda que a incidência e severidade dos enfezamentos foram maiores na safra 2022, coincidindo com produtividades significativamente menores. As condições da segunda safra — plantio tardio e migração de populações da cigarrinha após o término do milho verão — favorecem o aumento da doença ao longo do ciclo.

Como não há produtos curativos, Garbuglio acrescenta que o manejo depende de estratégias preventivas, como a semeadura na época recomendada pelo Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), publicado pelo Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária); redução da “ponte verde”; monitoramento do vetor, a cigarrinha; uso de híbridos que apresentem tolerância ao complexo do enfezamento; e, ainda, a proteção inicial das plantas.

“Ponte verde” é a existência de plantas — lavouras ou “tigueras” — em diferentes etapas de desenvolvimento, o que facilita a migração das cigarrinhas e realimenta do ciclo de contaminação dos cultivos.

ARTIGO

Os pesquisadores Marcelo Henrique Oliveira Gonçalves e Emerson Medeiros Del Ponte, ambos ligados à UFV (Universidade Federal de Viçosa), em Minas Gerais, e Dionathan Willian Lujan, também vinculado ao IDR-Paraná, assinam o artigo juntamente com Custódio e Garbuglio. Interessados podem acessar AQUI o texto na íntegra, em inglês.

*IDR-PR

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