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O mundo precisa olhar para o cooperativismo não como alternativa, mas como caminho

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Num mundo que busca caminhos mais humanos, sustentáveis e inclusivos, o  cooperativismo se consolida como um modelo capaz de transformar realidades de  maneira concreta. Não por acaso, a ONU escolheu 2025 como o Ano Internacional das Cooperativas. Hoje, o modelo está espalhado por todos os continentes e setores.

De acordo com a Aliança Cooperativa Internacional, existem mais de 3 milhões de cooperativas no mundo, reunindo um bilhão de pessoas — cerca de 12% da  população mundial. O impacto econômico também é gigante: são 280 milhões de  empregos gerados, cadeias produtivas fortalecidas e comunidades inteiras movimentadas, reduzindo desigualdades e criando novas oportunidades.

Esse impacto se torna especialmente evidente quando observamos o papel das  instituições financeiras cooperativas. Em um ambiente marcado por concentração  bancária, juros elevados e distância física e simbólica entre instituições e pessoas, as  cooperativas fazem a ponte que falta. Elas chegam antes — e onde ninguém chega.

São mais de 743 cooperativas de crédito no Brasil atendendo milhões de pessoas,  muitas delas em municípios pequenos, onde a presença de um único ponto de  atendimento pode significar o início de um ciclo de oportunidades. Ao oferecer crédito com taxas mais acessíveis, orientação qualificada e soluções de um modo mais humanizado, as cooperativas promovem a verdadeira inclusão financeira: aquela que não se limita a abrir contas, mas que viabiliza sonhos, investimentos, modernização, expansão e geração de renda real.

Esse é o diferencial central do cooperativismo: ele agrega renda; não retira. O modelo torna isso possível porque o cooperado se beneficia em três dimensões. Primeiro, pelo acesso ao crédito mais justo e com uma abordagem responsável por parte da cooperativa. Segundo, pela economia proporcionada por taxas e tarifas mais
adequadas à realidade de famílias, profissionais liberais, empresários e agricultores.

Terceiro, pelo retorno financeiro das sobras — o resultado anual da cooperativa — devolvido proporcionalmente aos cooperados É um ciclo virtuoso em que o dinheiro não sai da região, mas circula nela, fortalecendo laços econômicos, estimulando o  comércio local e evitando a concentração de recursos nos grandes centros.

Diferentemente de instituições tradicionais, o cooperativismo multiplica a renda ao  devolvê-la a quem produz e movimenta a economia. A pesquisa da FIPE/USP deste  ano, que avaliou dados econômicos de todos os municípios brasileiros, ilustra isso. Nas regiões onde há uma ou mais cooperativas, o impacto agregado em um ano foi de
mais de R$ 48 bilhões, 70 mil novas empresas e 278 mil postos de trabalho.

Além disso, o cooperativismo incrementa o PIB per capita dos municípios em 5,6%, cria 6,2% mais vagas de trabalho formal e aumenta o número de estabelecimentos comerciais em 15,7%, estimulando o empreendedorismo local.
Um grupo que expressa a força desse modelo são as micro e pequenas empresas.

Hoje, 26% das MPEs brasileiras têm relacionamento com o Sicredi, o que revela o tamanho do impacto da presença cooperativa no empreendedorismo nacional. Empreendedores recebem não apenas crédito mais acessível, mas também orientação próxima e soluções adaptadas à realidade dos pequenos negócios, que muitas vezes são o motor econômico de cidades interioranas. Apoiar essas empresas significa estimular empregos locais, fomentar inovação, fortalecer cadeias produtivas e manter viva a economia das comunidades — tudo isso enquanto parte dos resultados

retorna para os próprios empreendedores, reforçando o ciclo de prosperidade. No campo, essa lógica cooperativa também se traduz em resultados concretos, fortalecendo elos produtivos do agronegócio e garantindo que pequenos e médios produtores tenham acesso às mesmas oportunidades. A agricultura familiar é outro exemplo poderoso do modelo cooperativista.

Responsável pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, ela sustenta economias locais, preserva identidades culturais, garante a permanência de famílias no campo e sustenta tradições que moldam o modo de vida rural. Quando crédito acessível e orientação chegam a esse público, o impacto é imediato e
profundo. Nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, o Sicredi destinou mais de R$ 3 bilhões em custeio e quase R$ 900 milhões em investimentos somente na safra 24/25, beneficiando cerca de 48 mil associados.

O crescimento ao longo dos anos impressiona: o volume financiado para agricultura familiar mais que dobrou entre
20/21 e 24/25, refletindo não apenas a confiança no pequeno produtor, mas também a capacidade de transformação gerada quando a política pública se alia ao cooperativismo. Em nível nacional, o avanço se repete: o Sistema Sicredi destinou R$ 12,2 bilhões à agricultura familiar na safra 24/25, quase o dobro do registrado cinco anos antes.

Cada safra financiada representa mais do que números — é modernização de propriedades, compra de máquinas, aumento de produtividade, renda distribuída e comunidades inteiras fortalecidas. No conjunto, o impacto social das cooperativas ultrapassa a esfera financeira. Ele se expressa em educação, cultura, empreendedorismo, inclusão de jovens, desenvolvimento comunitário e sustentabilidade. Só em 2024, o Sicredi destinou mais de R$ 435 milhões a iniciativas de impacto — mais de R$ 1 milhão por dia investido diretamente na sociedade. A soma desses movimentos prova que o cooperativismo é uma resposta contemporânea para problemas antigos: ele reduz desigualdades, amplia oportunidades, fortalece regiões vulneráveis e cria um ambiente econômico
mais equilibrado e compartilhado.

É por isso que a ONU discute transformar o Ano Internacional das Cooperativas em uma recorrência periódica. A celebração anual não é suficiente para manter viva a potência do tema. O mundo precisa olhar para o cooperativismo não como alternativa, mas como caminho. O cooperativismo é, afinal, um instrumento contemporâneo para
um mundo que não pode mais conviver com desigualdade estrutural e concentração de renda. Onde há cooperativa, a vida melhora. E quanto mais esse movimento crescer, mais próximo estaremos de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, sustentável e capaz de gerar riqueza para todos — e não para poucos.

 

Artigo escrito por Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ e
diretor do Woccu (World Council of Credit Unions), único representante brasileiro no
conselho

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