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Profissionalização coloca o Paraná na primeira fila da corrida dos lácteos

Carambeí passou a ser o segundo maior município brasileiro na produção do alimento e junto com Castro, o primeiro, consolida a formação de uma “metrópole” do leite

 

A primeira fila da corrida nacional dos lácteos é 100% paranaense. Carambeí, com uma produção de 22,47 milhões de litros de leite em 2020, ultrapassou o município mineiro de Patos de Minas (19 milhões). Agora o Paraná conta com os dois maiores produtores do alimento do país. Mais do que isso, como o território carambiense é limítrofe de Castro, capital brasileira do leite, os dois municípios da região dos Campos Gerais formam uma verdadeira metrópole da bovinocultura leiteira.

 

Esse título foi conquistado com esforço, investimento em tecnologias, qualificação e uma ajuda considerável do clima, como enfatizam produtores e lideranças que estão há décadas na atividade.

 

A história da metrópole do leite entrelaça desafios da cadeia produtiva em si e os desafios da própria vida de tantas famílias rurais. No caso de Armando Carvalho, que hoje produz, em Castro, 38 mil litros de leite por dia com 900 vacas em lactação (média de 42 litros/dia), a relação com o mundo do leite surgiu de um trauma familiar. Era o ano de 1994, ele tinha apenas 13 anos quando seu pai faleceu. Por uma questão de necessidade de aumentar a renda, a mãe, então com 41 anos, vendeu uma caminhonete D20 nova que ficou de herança para comprar 20 vacas holandesas.

 

 

 

 

Os negócios foram caminhando, até que em 1998 Armando terminou o colégio agrícola e voltou para a propriedade. Com perseverança, conhecimento técnico e envolvimento da família na atividade, o negócio manteve um crescimento persistente. O resultado é que a propriedade de 2,6 mil hectares funciona como um relógio para produzir grãos e alimentos para as vacas. E, com um carrossel de ordenha capaz de atender as necessidades de até 2,6 mil animais por dia, ainda há bastante espaço para o local seguir em seu ritmo de crescimento de 20% ao ano. “Quando começamos a atividade, não tínhamos noção de que chegaríamos onde estamos hoje”, compartilha Carvalho.

 

 

Do outro lado da divisa, mas dentro da grande bacia leiteira “metropolitana”, Mauricio Greidanus está à frente de uma propriedade em Carambeí que comercializa 32 mil litros de leite por dia. Ele entrou na atividade em sociedade com o sogro, com 50 vacas, em 1989. O crescimento contínuo também foi uma estratégia decisiva para que o negócio chegasse ao nível atual, com 850 animais em lactação e 50 funcionários (que atuam também nas atividades de suinocultura e agricultura). “Todo ano aumentamos um pouco, um crescimento não muito grande, mas constante de 7% ao ano. E isso ocorre em todas as fazendas aqui da região, não apenas na nossa”, revela.

 

 

Produtividade e qualidade

 

Apesar dos números totais impressionarem, não é só em volume que os negócios têm se intensificado, mas também em evolução de produtividade. Para se ter ideia, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Castro teve um aumento de 550% na produtividade em 45 anos. Considerando 2020, se apenas o leite de Castro fosse um município, o Valor Bruto de Produção (VBP) Agropecuário seria maior que de outros 358 municípios paranaenses dos 399 que existem no Estado. Já em Carambeí, a cidade tem apenas o 51º maior rebanho nacional e, ainda assim, é o segundo maior produtor do Brasil. Nessa mesma localidade, o volume total de leite mais do que dobrou nos últimos 10 anos (veja no gráfico das páginas 22 e 23).

 

Segundo Altair Antonio Valotto, superintendente da Associação Paranaense dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), os índices de produtividade da região, nas fazendas intensivas (como as de Carvalho e Greidanus), chegam a 9,3 mil litros de leite por lactação, quando a média nacional não chega a 2 mil litros. “Qual é o segredo disso? Eles utilizam as vacas que dão mais leite, têm os mesmos níveis de produtividade e rentabilidade que no Canadá ou nos Estados Unidos. A chave está em genética boa, comida de qualidade e em quantidade, conforto, bem-estar e saúde para a vaca. O produtor daquela região está preocupado em produzir quantidade, com qualidade e rentabilidade”, resume.

 

Para se ter ideia do quanto a geração de dados é levada a sério no local, há um controle leiteiro em relação a aspectos relacionados desde 1966. “Eles são pioneiros nisso. É um reflexo de uma cultura influenciada pelos imigrantes holandeses e que se constitui como um diferencial enorme para a evolução da atividade. A profissionalização da cadeia produtiva do leite é algo no qual repousa a própria viabilidade da produção de leite. E um bom exemplo de como puxar o nível para cima é a implantação pioneira de um pagamento por qualidade do produto, o que faz com que o produtor tenha realmente incentivo e se engaje”, acrescenta o presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite do Sistema FAEP/ SENAR-PR, Ronei Volpi.

 

Valotto, da APCBRH, destaca a organização das cooperativas da região como outro elemento importante no sucesso da metrópole leiteira. “Ter esse suporte do cooperativismo abre a possibilidade de o produtor ter um guarda-chuva de apoio, em suporte de insumos, fábrica de ração, aporte de equipes técnicas que cuidam da sanidade, da saúde dos animais, doenças metabólicas. Essa sustentabilidade econômica é muito importante”, enfatiza.

 

Diferentes escalas

 

O produtor Jacob Vourlus, de Carambeí, tem uma propriedade de menor tamanho em relação as dos produtores Carvalho e Greidanus, mas igualmente com produção intensiva. Ele volta mais de um século no tempo para explicar o sucesso da região. Sua família veio da Holanda e passou a produzir leite nos Campos Gerais há 110 anos. Isso significa que Vourlus já é a terceira geração na atividade. No início, ele que é médico veterinário trabalhava em uma empresa privada, mas, em 2000, perdeu o emprego e mergulhou na propriedade. “Entre meu e arrendado, tenho cerca de 140 hectares e 270 vacas em lactação. A produção gira em torno de 9 mil litros por dia”, enfatiza.

 

 

Vourlus acredita que a tendência de expansão na produção de leite na região se deve especialmente à persistência e à organização da cadeia produtiva. “É uma conjunção de fatores que explicam. Muita gente se profissionalizou e a produtividade aumentou bastante. O manejo e os cuidados com os animais melhoraram, a produção de comida é mais estável, a vaca produz o ano todo”, analisa o bovinocultor leiteiro.

 

Com uma propriedade de 90 hectares e 165 vacas em lactação, Arthur Luiz Kassies, de Castro, é a segunda geração na produção de leite. Seu pai começou o negócio em 1984 e Kassies começou a ajudar em período integral. De lá para cá viu o negócio prosperar até chegar ao status atual: produção de 5,5 mil litros por dia. “O que ajuda na evolução da produção é o empenho dos produtores, da assistência técnica e a divulgação de informações. Entra muito também a questão genética, que cada vez está melhor, as opções de forragem, a suplementação. Vai somando tudo e vai só acrescentando”, diagnostica o produtor.

 

Campanha mostra importância econômica da atividade

 

O leite movimenta mais de R$ 100 bilhões ao ano e gera mais de 4 milhões de empregos no Brasil. Para ressaltar a importância dessa cadeia produtiva junto ao grande público, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em parceria com entidades dos setores público e privado, inclusive o Sistema FAEP/SENAR-PR, lançou, no dia 3 de novembro, a 1ª Semana do Leite. Trata-se de um conjunto de peças para redes sociais com alcance nacional, para mostrar a importância econômica do segmento leiteiro, que produz 34 bilhões de litros por ano no Brasil.

 

Ronei Volpi, que também é presidente da Câmara Setorial do Leite e Derivados do Mapa, considera importante o contato da sociedade em geral com as particularidades da cadeia leiteira até mesmo para promover uma valorização de todo o esforço envolvido do campo até a mesa do consumidor.

 

“Essa proximidade é saudável para toda a cadeia e tem potencial para proporcionar um aumento na confiança no consumo de lácteos. Graças ao esforço de décadas de tantas lideranças e o empenho de produtores, leite e derivados no Brasil são produtos de altíssima qualidade, sustentáveis e itens fundamentais para a segurança alimentar da população”, afirma Volpi.

 

Efeito multiplicador

 

O leite é uma atividade que possui diferentes modelos de negócio e que coexistem produções de vários tamanhos. Nos Campos Gerais, segundo Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP/SENAR-PR, é possível perceber nas propriedades médias e grandes o fato de os proprietários apostarem em produções intensivas, ou seja, extraem ao máximo o potencial produtivo, com altos investimentos. “O leite possui um efeito multiplicador, ou seja, para cada real gasto e investido numa atividade tem um desdobramento não só na cadeia produtiva, mas na economia como um todo”, explica.

 

No caso do leite, o produtor precisa dos insumos e toda uma rede estruturada para atender suas demandas. “Além de fazer a produção em si, essa cadeia precisa ser transportada e comercializada. Preciso de caminhão, de pneu, de borracharia, combustível, uma infinidade de insumos e serviços. O leite transborda riqueza e empregos para demais elos da economia. Quando a gente olha uma fazenda de leite, a mão de obra familiar é forte, mas de modo geral os empregos da cadeia leiteira estão nos demais elos”, detalha.

 

Outro dado importante, na avaliação de Ferreira, é o fato de que a remuneração média de quem trabalha na pecuária leiteira é maior do que em outras áreas da agropecuária. Isso se explica principalmente pelo fato de os proprietários precisarem de mão de obra especializada, além de haver questões como horas-extras e escalas diferenciadas. “A pecuária leiteira exige mão de obra intensiva. O tempo todo é necessário ter funcionários capacitados, supervisionando todas as etapas do processo produtivo”, enfatiza o técnico.

 

Sindicatos de Castro e Carambeí ajudam a impulsionar atividade

 

Em Castro e Carambeí há uma intensa participação dos produtores nos sindicatos rurais. As entidades auxiliam na organização das demandas da cadeia produtiva, na prestação de serviços aos pecuaristas e, principalmente, na qualificação de trabalhadores e produtores por meio dos cursos do SENAR-PR.

 

“Podemos dizer que a região tem uma estrutura que favorece a escolha dos agropecuaristas a se tornarem produtores de leite. Há suportes técnico, comercial, genético, espírito empreendedor, enfim, criou-se um ambiente virtuoso para a produção de leite”, analisa Ricardo Wolter, presidente do Sindicato Rural de Carambeí.

 

O comandante do Sindicato Rural de Castro, Eduardo Medeiros, lembra que, desde a época em que era funcionário do Banco do Brasil, nos anos 1980, presenciou os produtores de leite indo atrás de financiamento para importar tecnologia, especialmente em genética. E que aliado a isso, há uma busca constante por qualificação, tanto que existe um local especializado em cursos na área de pecuária, o Centro de Treinamento para Pecuaristas (CTP), em Castro – que tem convênio com o SENAR-PR.

 

“Tem cursos, cooperativas que dão todo o suporte no fornecimento de insumos e captação do leite, com assistência técnica inclusive”, analisa.

 

Somente de formações diretamente ligadas à produção de leite, o SENAR-PR tem 15 títulos com temas como manejo e alimentação de bezerros, conservação de forragem, casqueamento de bovinos, ordenha, bem-estar, avaliação de conformação, entre outros. Além disso, diversos outros cursos estão relacionados às atividades gerais das propriedades rurais e podem servir a produtores e trabalhadores rurais. Todos os títulos estão disponíveis, gratuitamente, no site.

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