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Produtores de Cruz Machado projetam grandes perdas pela estiagem

O Boletim AgroRegional recebeu relatos e imagens que mostram como a falta de chuvas está afetando a produção de erva-mate e outras culturas

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Nos últimos dias produtores da região de Cruz Machado procuraram a redação do Boletim AgroRegional para relatar os problemas e a preocupação em relação a falta de chuvas. A crise hídrica é um dilema de nível nacional e que preocupa os produtores rurais pela baixa produtividade e percas.

 

O morador da localidade de Palmital, em Cruz Machado, Sérgio Dupczak é um dos agricultores que entraram em contato com nossa reportagem. Além de relatar o que se passa em sua propriedade, Dupczak conversou com vizinhos e amigos de outras comunidades. De acordo com ele, todos estão sentindo muito o impacto da seca. “Na pecuária leiteira estão sentindo bastante pela questão de que eles não vão ter material, no caso o milho, para produzir a silagem que vai abastecer eles para o próximo ano”, conta.

 

Sérgio aponta que nunca tinha passado por uma situação de escassez como a de agora, mas relata que seu pai passou por uma ainda pior no final da década de setenta. Entretanto, ele reconhece que a situação é crítica e lamenta pelas perdas, que segundo ele, devem ser acima de 80% na propriedade. “Não tem uma perspectiva boa, nem mesmo os plantios mais tardios, não existe nenhuma perspectiva sobre as culturas que foram mais afetadas, todas infelizmente”.

 

O agricultor observa que o feijão já tem a perca decretada, assim como o milho. Já a soja deve amargar um prejuízo muito grande na região. “Eu e várias outras pessoas tem ervais mais jovens, digamos assim, até três anos, e que são um pouco mais recém-plantados, eles estão sentindo muito”, conta, reiterando que não tem esperança de que as mudas vão sobreviver.

 

 

Produzindo feijão, milho e soja, Ermínio Siepko, também da da Linha Palmital, relata que as lavouras estão perdidas, sem possibilidade de colheita para o feijão. O milho tem situação parecida. “A soja está caminhando para o mesmo destino”, afirma. O produtor comenta que nunca havia passado por um período tão complicado com pouca chuva.

 

MAIS PREJUÍZOS

 

Anderson Wurr é mais um dos agricultores do município que mostra a angustia pelos prejuízos. Segundo ele, o gado leiteiro está somente a base de ração e silagem, já que os pastos estão todos secos. “Isso já acarretou na diminuição da produção, sem dizer o custo por litro de leite que aumentou. Essa produção está mais cara e o milho está 95% afetado. Isso vai dar m prejuízo de mais ou menos R$ 170 mil”.

 

ERVA-MATE

 

João Chavaski é outro produtor do município e presidente da Associação Vale do Mate de Cruz Machado, e que está preocupado com falta de chuvas. “Olha, realmente, em quarenta e oito anos de vida que eu tenho, eu nunca vi uma situação tal como estamos vivendo agora no município. Acho que nós vamos viver esse próximo ano aí uma crise terrível”.

 

Cruz Machado é a maior produtora de erva-mate do País, concentrando 15,5% da produção nacional. A informação é da pesquisa de Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS 2020) e este é um dos produtos que mais sofrem com seca, juntamente com o milho. “Oitenta por cento da atividade agrícola do município é a erva-mate. A erva-mate leva dez, doze anos para você conseguir fazer uma safra dela para ela passar a produzir como que estava produzindo. E os ervais de dez, quinze anos estão morrendo também”, diz João.

 

 

 

O produtor tem duas propriedades em Cruz Machado, uma na Linha União e outra na Vitória, sendo esta última a mais afetada. “A minha atividade é mais reflorestamento, erva-mate, pinos e eucalipto. O milho a gente planta um pouco, mas é mais é para consumo próprio e para sombreamento da erva-mate. Eu plantei esse ano, mas nem isso não conseguiu crescer, nem para fazer a sombra para a erva-mate. Mas a estiagem afetou geral, o próprio reflorestamento de pinos está sofrendo muito com a estiagem. O prejuízo será incalculável no município “, projeta João.

 

SEGURO RURAL

 

 

A situação preocupante na lavoura levanta outras questões, como a do seguro rural. Porém, muitos produtores ainda não têm acesso e depende de boas condições climáticas para um resultado satisfatório no momento da colheita. Sérgio é um desses produtores que está desamparado. No entanto, ele já planeja aderir ao seguro para ter mais tranquilidade. “Ano que vem a gente espera que não precise acionar, mas a gente vai fazer com certeza porque já vimos que é bastante importante ter. Um dos meus amigos tem uma determinada área, mas o ano que vem ele vai fazer o possível para cobrir cem por cento. Porque assim ele tem uma garantia muito maior”.

 

Diferente de Sérgio, o produtor João Chavaski conta com seguro rural, porém, como ele mesmo aponta, não cobre os prejuízos da erva-mate. “O seguro não cobre, então nem o que a implantação dos novos ervais que eu fiz esse ano, não vou ter cobertura de seguro. Boa parte dos agricultores, quem plantou milho por conta própria já não sabe nem o que vai fazer, como que vai fazer para as próximas safra, porque não vai ter retorno. Além de não ter o que tratar os animais, não tem como fazer a próxima safra. Situação é crítica, é caótica no município com essa estiagem”.

 

 

Dos 90 hectares da propriedade de Ermínio, apenas 26 estão cobertos com seguro. Para ele, já não é viável fazer lavoura com o próprio bolso. “Vou me planejar fazendo seguro para mais área”, garante.

 

Na propriedade de Anderson o seguro cobre 8 hectares, e a esperança dele é que o banco e o governo entendam a situação e ajudem os produtores. “A situação rural está crítica, sem contar as nascentes da propriedade que estão com pouca agua. Os peixes já começaram a morrer”, afirma.

 

QUEDA

 

Segundo o produtor Sérgio, um de seus vizinhos realiza a medição das chuvas durante o ano e a distribuição delas, e o mesmo observou uma média bem abaixo em relação aos anos anteriores.

 

“Nos últimos seis, nós tivemos, por exemplo, no ano de 2015 com uma média de chuvas muito boa. Praticamente três mil milímetros. Em 2016 essa média já diminui para dois mil e quinhentos e trinta. 2017, somente dois mil e cinquenta milímetros. 2018, mil seiscentos e trinta milímetros. 2020, mil quinhentos e noventa milímetros. E agora 2021, até hoje [27/12], fechou em apenas mil quinhentos e quarenta e desses o mês de janeiro e outubro concentram quarenta e cinco por cento do total. Então em dois meses nós tivemos praticamente seiscentos, quase setecentos milímetros e nos outros dez meses todos eles a média é muito abaixo do que é esperado”, explica.

 

***Além dos entrevistados, participaram com relatos e imagens os produtores Lauro Naumiuk, Délcio Siepko e Vagner Dupczak.

 

***Atualização

De acordo com moradores da zona rural, na tarde desta terça-feira (28) choveu em algumas localidades, no entanto, com granizo, o que pode intensificar as perdas.

 

Texto: Daiara Souza

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